A área de pesquisa do GT Cuidado Seguro dedica-se à produção de conhecimento científico voltado à qualidade do cuidado em saúde e à segurança do paciente. As investigações desenvolvidas pelo grupo buscam analisar práticas assistenciais, processos de trabalho e estratégias de gestão da qualidade, com foco na prevenção de incidentes, na melhoria contínua dos serviços de saúde e no fortalecimento da cultura de segurança, em articulação com serviços de saúde e instituições parceiras.
Introdução:
Atualmente, o processo de formação dos profissionais da área da saúde vem sendo discutido pela necessidade da inserção de conteúdos sobre qualidade em saúde e segurança do paciente. Isto ocorre em virtude da dimensão que o tema tomou, enquanto problema de saúde pública global, uma vez que as falhas relacionadas à segurança representam uma das maiores causas de óbitos em todo o mundo, superando aquelas causadas por doenças crônicas (BOHOMOL; TATARLI, 2017).
Após duas décadas da publicação do “Errar é Humano” a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou um Plano de Ação Global para a Segurança do Paciente que evidenciou novos desafios. O principal objetivo do plano é eliminar danos evitáveis nos cuidados de saúde com a visão de “um mundo em que ninguém é prejudicado nos cuidados de saúde, e todos os pacientes recebem cuidados seguros e respeitosos, todas as vezes, em todos os lugares". A missão do plano de ação global é impulsionar políticas, estratégias e ações, baseadas na ciência, na experiência do paciente, design de sistema e parcerias, para eliminar todas as fontes de risco evitáveis e danos aos pacientes e trabalhadores de saúde (WHO, 2021).
Este plano reforça a precisão em fortalecer a educação para segurança do paciente, onde as universidade possuem um papel fundamental na estruturação de currículos que absorvam os objetivos elencados no Guia Curricular da OMS, publicado em sua edição multiprofissional (WHO, 2011). A reflexão trazida no contexto internacional é que o estudante de graduação da área da saúde precisa compreender para além da evidência científica, sendo capaz de reconhecer os componentes de um cuidado centrado no paciente e de identificar os possíveis desvios na prática assistencial que auxiliem a determinar quais as ações que necessitam ser implantadas para sua correção (WHO, 2021; BOHOMOL; TATARLI, 2017).
No Brasil, em consonância com as iniciativas internacionais na área de segurança do paciente, o Programa Nacional de Segurança do Paciente (PNSP) deu destaque ao ensino da segurança como um dos eixos de implementação do programa, estabelecendo que as instituições formadoras incluam conteúdos nos currículos de graduação dos cursos, dando ao assunto um caráter de urgência para sua discussão no seio das escolas e universidades (BRASIL, 2013).
Dessa forma, torna-se um grande desafio para as instituições formadoras superar o paradigma biologicista, centrado na figura do profissional e na patologia como eixo norteador das ações de saúde, para inclusão de aspectos que envolvem a segurança dos pacientes, a prevenção de danos, o trabalho em equipe e a comunicação efetiva. Nessa perspectiva é necessário vislumbrar um ensino que permeie estratégias colaborativas em grupos, que seja contextualizado com as práticas do cotidiano na saúde, que gere reflexão e que seja pautado em preceitos éticos; que gerem estímulo ao aluno para buscar soluções viáveis, seguras e humanas (FARIAS, MARTIN, CRISTO, 2015; ROMAN, et al. 2017).
Inserir o conhecimento teórico e as ferramentas que auxiliam na identificação e gerenciamento de risco alinhadas à situações práticas com intervenções em contextos específicos e complexos pode resultar em implicações positivas na vida pessoal e profissional (SILVA et al., 2014). Ademais, fortalecer a articulação entre os discentes dos diferentes cursos de graduação na área da saúde, por meio do currículo interprofissional, assume um papel importante no processo de transformação curricular para o ensino em saúde, além de estimular reflexões sobre o ensino-aprendizagem, desenvolver o pensamento crítico-reflexivo e promover inovações educacionais (SILVA, et al., 2021).
Com isso, lança-se a proposta de integrar uma educação que envolva a segurança no cuidado em saúde aos estudantes dos diversos cursos da área da saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), de modo a favorecer o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades e atitudes para uma assistência segura por meio da oferta do componente curricular Tópicos em Segurança do Paciente, ofertado pelo Departamento de Saúde Coletiva, juntamente com a colaboração de discentes monitores que contribuam na construção de uma cultura de segurança solidificada no período de formação acadêmica..
Objetivos:
Preparar os discentes monitores e demais alunos da área de saúde para a prática segura nos serviços e sistemas de saúde, de modo a fortalecer a cultura da qualidade e segurança na formação dos estudantes;
Fortalecer o ensino sobre os tópicos-chave em segurança do paciente, gestão de riscos na área da saúde e gestão da qualidade com auxílio das práticas baseadas em evidência e metodologias ativas;
Construir junto ao monitor discente um ambiente seguro e favorável para ensinar qualidade e segurança do paciente, de forma a aprender com os erros para evitar danos;
Reforçar a necessidade de inserir o ensinoda qualidade e da segurança do paciente em todos os contextos de formação dos cursos de graduação da área da saúde da UFRN;
Inserir o discente em situações problema acerca da temática que requerem ação profissional consciente, a fim de levá-lo a buscar soluções para a questão apresentada.
Fortalecer a comunicação efetiva, a interprofissionalidade e o trabalho em equipe entre os estudantes da área da saúde por meio de estratégias de ação proativa.
Promover a aproximação do discente monitor às tecnologias educacionais inovadoras para o ensino da qualidade e da segurança do paciente, como a educação cinematográfica, construção de cenários práticos de simulação, construção de vídeos, dramatização, entre outros.
Método:
O discente será conduzido a desenvolver o raciocínio crítico, reflexivo, fundamental para a tomada de decisão e para promoção de uma assistência segura e de qualidade. Para isso, este será implicado nas etapas de Planejamento, Execução, Monitoramento e Avaliação dos componentes curriculares Tópicos em Segurança do Paciente e Gestão da Qualidade em Serviços de Saude, vinculados ao Departamento de Saúde Coletiva e composto por demais docentes dos departamentos de Enfermagem, Infectologia e Cirurgia. O docente orientador deverá estimular o discente na busca do conhecimento e produção científica, de modo a favorecer a sua autonomia e colaboração no planejamento da disciplina. Além da necessidade de consolidação teórica da temática, o discente deverá associar o conhecimento já construído da área com situações cotidianas de durante os tópicos da disciplina.
Dentre as atividades a serem planejadas e executadas estão:
Participação em aulas expositivas dialogadas; discussões de textos; apresentação de casos clínicos; atividade de coleta e análise de dados de pesquisa; planejamento e execução de atividade em grupo, com foco na utilização de ferramentas para uma comunicação efetiva e no trabalho em equipe; exposição e análise de vídeos; construção de materiais didáticos interativos; construção de cenários práticos de simulação; elaboração de roteiros de dramatização sobre situações-problema. Nesse sentido, será possível trabalhar os principais Tópicos do Guia Curricular Multiprofissional de Segurança do Paciente da Organização Mundial da Saúde, e considerar que nesse ambiente de aprendizagem o aluno pode errar e trabalhar a prevenção e análise desses erros.
O discente monitor terá carga horária de 10 horas semanais para leitura e desenvolvimento das atividades. O docente orientador realizará o acompanhamento do discente em todo o período de execução do projeto. Ressalta-se que as atividades do discente monitor serão realizadas de forma presencial.
Introdução:
A resistência bacteriana aos antimicrobianos (RAM) é reconhecida como uma das maiores ameaças à saúde pública global, impactando diretamente a eficácia terapêutica e aumentando morbidade, mortalidade e custos assistenciais. Estima-se que até 50% das prescrições de antimicrobianos na Atenção Primária à Saúde (APS) sejam inadequadas, especialmente em casos de infecções respiratórias, urinárias e sexualmente transmissíveis. Apesar da eficácia comprovada de programas de gestão de antimicrobianos em hospitais, ainda há uma lacuna na implementação de modelos sustentáveis voltados para a APS. Este projeto busca preencher essa lacuna ao propor uma estratégia multimodal, integrando capacitação profissional, conscientização dos usuários e suporte à decisão clínica.
Objetivos:
Geral: Implementar e avaliar uma estratégia multimodal para otimizar o uso de antimicrobianos na APS, incorporando o conceito de Saúde Única e envolvendo profissionais de saúde, usuários e gestores.
Específicos:
Avaliar conhecimentos, crenças e práticas sobre antimicrobianos entre profissionais e usuários.
Monitorar a qualidade e o volume da prescrição de antimicrobianos.
Desenvolver e aplicar ações de educação permanente para equipes multiprofissionais e usuários da APS.
Investigar a prevalência de bactérias resistentes e genes de resistência em humanos e no ambiente.
Implementar e avaliar uma ferramenta digital de apoio à decisão clínica para prescrição racional.
Método:
Trata-se de um estudo quasi-experimental com avaliação pré e pós-intervenção, desenvolvido em Unidades Básicas de Saúde dos municípios de Parnamirim e São José de Mipibu/RN. A pesquisa seguirá etapas articuladas:
Levantamento de conhecimentos e percepções de profissionais e usuários sobre antimicrobianos.
Análise da adequação de prescrições e monitoramento do consumo por meio de indicadores padronizados (DDD/1.000 hab./ano).
Implementação de estratégias educacionais baseadas no modelo Expert Recommendations for Implementing Change (ERIC), com atividades participativas de educação permanente e educação em saúde.
Coleta de amostras biológicas (usuários e profissionais) e ambientais (água potável, residuais e de córregos) para identificação de bactérias resistentes e genes de resistência.
Utilização de ferramenta digital desenvolvida pela CAMO-Net Brasil para apoiar a prescrição racional.
O projeto é coordenado pelo Departamento de Infectologia da UFRN, em parceria com a CAMO-Net Brasil e o Centro de Otimização de Antimicrobianos da USP, alinhando-se às estratégias nacionais e internacionais de combate à RAM.
A mortalidade materna e neonatal permanece como um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo, refletindo fragilidades na qualidade da assistência e desigualdades sociais. Apesar do elevado número de partos institucionalizados, os desfechos ainda são desfavoráveis, revelando a necessidade de estratégias que promovam segurança do paciente e boas práticas assistenciais. A Lista de Verificação para o Parto Seguro (LVPS), proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), surge como ferramenta promissora para reduzir lacunas entre o conhecimento científico e a prática clínica. No entanto, sua implementação enfrenta barreiras contextuais e de adesão, demandando estratégias multifacetadas fundamentadas na ciência da implementação. Nesse cenário, este projeto multicêntrico busca avaliar os efeitos da aplicação da LVPS em maternidades brasileiras, contribuindo para a redução de eventos adversos e a melhoria da qualidade assistencial, além de gerar um modelo escalável de implementação para o SUS.
Avaliar a implementação de estratégia multifacetada que inclui a LVPS da OMS e seus efeitos sobre a qualidade na assistência materno-infantil em seis maternidades do Brasil.
Analisar o efeito da estratégia multifacetada baseada na LVPS na adesão às boas práticas e na ocorrência de eventos adversos relacionados à assistência ao parto.
Examinar a associação entre a cultura de segurança do paciente das instituições e a implementação da LVPS.
Validar o conteúdo de um modelo de implementação de práticas efetivas e seguras baseado na LVPS para escalonamento em maternidades brasileiras.
Analisar a usabilidade do software Qualiparto como ferramenta de monitoramento de indicadores.
Trata-se de um estudo multicêntrico, de abordagem mista, envolvendo seis maternidades do Rio Grande do Norte e do Rio de Janeiro. O desenho será quase-experimental, do tipo série temporal, com coletas quinzenais de indicadores antes (12 coletas) e depois (12 coletas) da intervenção. A amostra será composta por 30 prontuários de mães e bebês por maternidade a cada quinzena, totalizando 8.640 participantes. Serão também realizados estudos seccionais para caracterizar a cultura de segurança do paciente e barreiras de implementação, com entrevistas de 100 profissionais por maternidade. A intervenção incluirá adaptação da LVPS, treinamento de profissionais, implementação apoiada por coaches, uso do software Qualiparto para monitoramento e feedback dos indicadores. As análises envolverão gráficos de controle estatístico para variação longitudinal e testes qui-quadrado para associações entre contexto organizacional e adesão à LVPS. A significância estatística será de 5%.
Espera-se que a implementação da LVPS aumente a adesão a boas práticas, reduza eventos adversos obstétricos e forneça subsídios para validação de um modelo escalável de implementação aplicável ao contexto nacional.